Divórcio como experiência jurídica e psíquica: separação, perda e elaboração
Autor: Rodrigo da Cunha Pereira | Data de publicação: 29/07/2026
Divórcio de casais é sempre envolvido em dor, sofrimento e angústias. Separação às vezes é desejo, às vezes necessidade. Pode ser também, um ato de responsabilidade, um compromisso com a saúde física e mental. Deixa sempre a sensação de vazio e desamparo. Mas não tem jeito: como sujeitos de desejo que somos, fica sempre essa sensação. Estamos sempre nos iludindo que o outro pode tamponar, preencher nosso vazio existencial. E é assim que vamos vivendo, sempre tentando preencher o inexorável vazio.
Quando uma relação acaba, nosso desamparo estrutural fica mais escancarado. Pior ainda quando uma das partes foi trocada por outra pessoa. Instala-se aí o pior sentimento que alguém pode ter: o de rejeição, o de ser substituída por outra pessoa, ou simplesmente não ser mais amado/querido por aquele que se supunha que me amaria para sempre. Esse sentimento de rejeição, nem sempre vem tão explícito. Muitas vezes ele vem travestido de ódio e vingança. Além disso, costuma-se usar os filhos como moeda de troca do fim da conjugalidade. E isto pode trazer consequências nefastas para o núcleo familiar, com graves repercussões negativas aos filhos.
O processo judicial de divórcio é antecedido por um processo psíquico que tem várias fases. Primeiro, o da negação. Freud já nos alertava para os mecanismos psíquicos que operam diante de uma realidade insuportável, e aí o sujeito tende a negá-la.
A segunda fase, é quando a “ficha cai”. Instala-se o ódio, o ressentimento, e o desejo de reparação narcísica. É nesse momento que aparecem as atitudes mais perigosas. É aí também que se realça os defeitos do outro. O sentimento de rejeição leva a pessoa a fazer coisas que até Deus duvida. Aquele que foi deixado costuma mostrar o seu pior. Nesse momento todos os clientes nos dizem: “Quero tirar tudo dele/dela”, ou “Só quero os meus direitos, nem um centavo a mais”, etc. Mas estão sempre com a sensação de que o outro está em vantagem. É aí que, muitas vezes, se instala o litígio, e o processo judicial se transforma na materialização de uma realidade subjetiva. Ficarão unidos pelo ódio, por anos a fio. O ódio une mais que o amor. Não há ganhadores. Todos perdem, principalmente os filhos.
A terceira fase é a da aceitação. Somente aí há alguma racionalidade. Esta fase pressupõe a elaboração do luto, e o sujeito reconhece e começa a aceitar o fim da relação, sem precisar destruir o outro ou a si mesmo. É o momento de lembrar da música de Paulo Vanzolini: “Levanta sacode a poeira, dá a volta por cima”. E aí entra a importância dos Advogados que trabalham com Direito das Famílias. É preciso saber ouvir, com olhos e ouvidos. Uma escuta atenta e amorosa. Neste momento passamos ocupar um lugar importantíssimo na vida dos divorciandos/separandos, e também representamos algum amparo. É preciso ter essa consciência e responsabilidade de nossa ética profissional.
Não podemos colocar lenha na fogueira
Ao contrário, nossa função é exatamente tirar lenha da fogueira. Neste momento, a ideia de separação sai do campo do imaginário, da possibilidade, e entra no campo do real. Procurar um advogado significa dar materialidade a essa ideia, dar concretude a uma possibilidade. Assim, ajudamos as pessoas a atravessarem essa difícil fase da vida fazendo o rito processual do divórcio, que é também um ritual de passagem. Essa travessia, às vezes não é desejo, mas torna-se necessidade de restauração da saúde e da própria dignidade.
O divórcio, portanto, não é apenas o término de um vínculo conjugal: é também uma travessia. Não precisa ser uma tragédia. Deve ser visto como solução, e não como um problema. Quando mal elaborado psiquicamente, o divórcio corre o risco de se transformar em cenário de sofrimento prolongado, e em histórias de degradação do outro, afetando não apenas o casal, mas sobretudo os filhos, que acabam por carregar dores que não lhes pertencem.
Compreender o divórcio a partir do diálogo do Direito e Psicanálise é reconhecer que, por trás dos autos, há sujeitos em sofrimento. A Psicanálise vai ajudar a elaborar o luto, as perdas psíquicas, e entender que ciclos se fecham e outros se abrem. Perde-se por um lado, mas ganha-se por outro. É como cortar uma arvore em frente à janela. Perde-se o canto dos pássaros, mas ganha-se uma nova iluminação. E, nenhuma decisão judicial é capaz de encerrar aquilo que não foi psiquicamente elaborado.
O Direito vai oferecer limites, contornos e possibilidades de reorganização da vida. Objetividade e subjetividade se misturam nesse, às vezes, tormentoso, processo de divórcio. Nosso desafio, portanto, é transformar essa confusa e sofrida subjetividade, em objetividade dos atos e fatos jurídicos, ajudando assim as pessoas a saírem de uma borda, fazer a travessia em direção a outra borda, um outro lugar na vida, em reencontro consigo mesmo, e assim abrir novas possibilidades.
Rodrigo da Cunha Pereira
é advogado, doutor (UFPR) e mestre (UFMG) em Direito Civil, presidente do IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família), autor de vários livros e trabalhos em Direito de Família e Psicanálise. Parecerista.
Disponível: https://conjur.com.br/2026-jul-28/divorcio-como-experiencia-juridica-e-psiquica-separacao-perda-e-elaboracao-o-divorcio-para-alem-do-processo/?print=1